sexta-feira, 30 de outubro de 2009

para o feriado do dia dos mortos...


Vou morrer. Acho que não hoje, nem amanhã... não sei quando, e nem por que... Vou morrer... Todos vamos... Mas eu, vou morrer, e penso nisso todos os dias. E penso que vou morrer quase todos os dias. Pensei há muito tempo atrás, que se eu morresse aquela hora, tudo teria acabado do jeito que eu queria. Pensei no mês passado, que se eu morrersse aquele dia, tudo bem. Eu não me arrependeria! Pensei, depois de duvidar, que ele podia me matar... Só se fosse, porque de medo, eu não morreria... No sábado, eu pensei que se eu morresse, seria na volta, no domingo. Domingo, pensei que ia morrer de sono, em cima da árvore talvez. Segunda de manhã pensei em morrer de tédio e achei muito sem graça. À noite, pesnsei morrer na chuva. Mas segunda não morreria. Nem em sonho, porque aquela noite não sonharia. Terça, desatenta, quase morro sem pensar, ouvindo música, ao atravessar. Tão dispersa que estava, de não ouvir nem telefone tocar... Quarta, quase morro, de mentira. Quinta, pensei, pensei, pensei... e não morri de novo. Hoje, sexta, eu ainda espero por ela. Como espero todos os dias da minha vida, pela minha morte, pela minha sorte. Espero sem pesar. Hoje, se eu morrer, que seja depois do cinema.
Lembro de ter sentido a morte perto, algumas vezes. Não a minha. Lembro que ela passa rápido, e quando eu sinto é porque já foi. Lembro que quando ela esteve em casa, o Argos tremeu muito, e se escondeu. Eu não. Eu não sabia, mas agora já sei.
Da minha morte não tenho mais medo. Mas tenho muito da dos outros. A minha, eu espero, apenas. E o que eu penso para quando ela chegar? Que seja rápido e indolor. Mais rápido que indolor. Que eu tenho pressa, mais que medo. E sei me virar com a dor.


(arte: Stephan Doitschinoff aka Calma - "Death is a Holiday")

As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.

Amor é dado de graça
É semeado no vento,
Na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Saudade da Bahia


mais Hilda Hilst...

III

Caio sobre teu colo.
Me retalhas.
Quem sou?
Tralhas, do teu divino humor.

Coronhadas exatas
De tuas mãos sagradas.
Me queres esbatida, gasta

E antegozas o gosto
De um trêmulo Nada.

Me devoras
Com teus dentes ocos.
A ti me incorporo
A contragosto.

Sou agora fúria
E descontrole.
Agito-me desordenada
Nos teus moles.

Sou façanha
Escuro pulsante
Fera doente.

À tua semelhança:
Homem.




my random universe

My random universe
starts I don't know where
has no time
and I don't know why
never ends, too

There, rains when I cry
rains when I smile
but sometimes, and only sometimes
the sun shines
or the moonlight, at night

There, everything is random...
Just like me...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Julieta e seu Romeo no baile de máscaras


(por Lacroix, da série "Proibidas") - foto da Pri



"flores debaixo dos pés..."


noite de não sonhar

noite de chegar tonta de tanto girar...
de tomar chuva e borrar como aquarela
e cantar o caminho inteiro
para não precisar pensar

noite de defumar...
de enxergar a bruma mais bela
e tomar banho de cheiro
para tudo em volta perfumar

noite de recompensar...
ensonhos que não foram dela
e o sono do mês inteiro
noite de relaxar

noite de não sonhar...
de dormir com uma pétala amarela
dentro do travesseiro
só para descansar

;

do provérbio 27

"O gotejar contínuo em dia de grande chuva, e a mulher contenciosa, uma e outra são semelhantes;
Tentar moderá-las será como deter o vento, ou como conter o óleo dentro das mãos."

(da Bíblia mesmo...)

uma súplica

"pedi pro sol se esconder um pouquinho,
pedi pra chover,
mas chover de mansinho..."

(luiz gonzaga)


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

lugar de pensar



ponto

"Comigo ninguém pode
E nem há de poder
Minha banda é mais forte
Que a banda de você"

laroiê

domingo, 25 de outubro de 2009

Tu sabes

VI

(...)

Teu recesso.
Teu encostar-se
Às duras paredes
De tua sede.

Teu vício de palavras.
Teu silêncio de facas.
As nuas molduras
De tua alma.

Teu magro corpo
De pensadas asas.
Meu verso cobrindo
Inocências passadas.
Tuas.

Imagina-te a mim
A teu lado inocente
A mim, e a essa mistura
De piedosa, erudita, vadia
E tão indiferente.

Tu sabes

(...)


Hilda Hilst, em POEMAS MALDITOS, GOZOSOS E DEVOTOS

Trajes de Cena



"Eu quero continuar a acreditar que permanecer diferente é a chave para tudo"

(Christian Lacroix - Trajes de Cena - na FAAP)

proibidaaa

Le Petit Prince



aquarelas: Antoine de Saint Exupéry, da edição de 1978

Mi Reino

Mi reino es de los astros misteriosos,
del fuego que susurra en el ocaso.
Se me figura milagrosa tela
el cielo con su azul iluminado.
Conmigo no es el hombre sino el ángel.
Su sombra se hace mies en mi costado.
Él busca de mi luz el santo norte
como la brisa cuando es mi rebaño.
Mi reino es de las olas de la mar
que nunca al pensamiento dan descanso,
de las estrellas fijas en los ojos
pues son criaturas de un querer muy manso.
Si llueve es porque lluevo lentamente
y si amanece es porque ya me aclaro.
Cuando anochece y no aparece el cielo
el viento de mi reino está callado.

(Delfina Acosta)

(manual de auto-ajuda para supervilões)

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.

Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.

Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.

Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.

Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.

Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.

Ou Malcolm.

Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.

Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.

Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.

Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.

Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.

Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.

Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.

Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.

Nunca ame ninguém. Estupre.

Execre o amável. Zele pelo abominável.

Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

(Joca Reiners Terron)

As Flores do Mal II / TÔDA INTEIRA


O Diabo, em meu quarto um dia,
Apareceu para me ver,
Pensando que me confundia,
Disse-me: “Eu só queria saber,

De todas as coisas formosas
De que é feito o seu encanto,
De todas as partes negras e rosas
Que de seu corpo o charme é tanto,

Qual é a mais doce?”– Ó minha alma!
Respondeste ao Maldito:
“Pois que ela é um bálsamo de calma,
Nada ela tem de preferido.

E meu ser sempre ao vê-la ignora
Em que encantos dos seus se acoite.
Ela fascina como a aurora,
Ela consola como a noite.

Mas esta harmonia é tão precisa
Que o seu belo corpo governa.
Nossa visão que analisa
Não vê sua beleza eterna.

Ó metamorfose tão mística
Que os meus sentidos já resume!
O seu hálito faz a música
Como sua voz faz o perfume!”

(Charles Baudelaire)

para viver um grande amor

"Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há de fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor"

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

" flor de vento "

"(...) os outros, os que se transfomam em coisas sólidas... Eu não me transformarei!"
(Chakan)




*

como querer, assim por acaso,

tentar por uma flor
de vento dentro de um vaso...

sina daquele, que tenta plantar,
no seu jardim secreto
uma flor que é feita de ar...




*

Ler trevas


Ler trevas.
Nas letras, ler tudo
o que de ler
não te atrevas.

Ler mais.
Ler além.
Além do bem.
Além do mal.
Além do além.

Horas extras
ou etcéteras,
adeus, amém.

Busquem outros
a velocidade da luz.

Eu busco
a velocidade da treva

(Leminski)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

da leveza das coisas

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.
(Alberto Caeiro)

Ai Se Sêsse...

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

(Zé da Luz)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

DIONISOS ARES AFRODITE

(leminski, mais proibida ainda, na instalação)

o amor, esse sufoco


(leminski, proibida, na instalação)

As Flores do Mal

A QUE ESTÁ SEMPRE ALEGRE

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

*******


O CONVITE À VIAGEM

Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,

Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
— Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

(Charles Baudelaire)

Teu segredo

"Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu."

(Clarice Lispector)

"há flores por todos os lados, há flores em tudo que eu vejo"

Flor Perigosa

"Ah! quem, trêmulo e pálido, medita
No teu perfil de áspide triste, triste,
Não sabe em quanto abismo essa infinita
Tristeza amarga singular consiste.

Tens todo o encanto de uma flor, o encanto
Secreto de uma flor de vago aroma...

Mas não sei que de morno e de quebranto
Vem, lasso e langue, dessa negra coma.

És das origens mais desconhecidas,
De uma longínqua e nebulosa infância.

A visão das visões indefinidas,
De atra, sinistra mórbida elegância.

Como flor, entretanto, és bem amarga!
Pólens celestes o teu ser inundam,
Mas ninguém sabe a onda nervosa e larga
Dos insetos mortais que te circundam.

Quem teu aroma de mulher aspira
Fica entre ânsias de túmulo fechado...

Sente vertigens de vulcão, delira
E morre, sutilmente envenenado.

Teu olhar de fulgências e de treva,
Onde as volúpias a pecar se ajustam,
Guarda um mistério que envilece e eleva,
Causa delíquios e emoções que assustam.

És flor, mas como flor és perigosa,
Do mais sombrio e tétrico perigo...

Fenômenos fatais de luz ansiosa
Vão pelas noites segredar contigo.

Vão segredar que és feia e que és estranha
Sendo feia, mas sendo extravagante,
De enorme, de esquisita, de tamanha
Influência de eclipse radiante...

Sei! não nasceste sob a luz que ondeia
Na beleza e nos astros da saúde;
Mas sendo assim, morbidamente feia,
O teu ser feia torna-se virtude.

És feia e doente, surges desse misto,
Da exótica, da insana, da funesta
Auréola ideal dos martírios de Cristo
Naquela Dor absurdamente mesta.

Vens de lá, vens de lá -- fundos remotos
Adelgaçando como os véus de um rio...

Abrindo do magoado e velho lótus
Do sentimento, todo o sol doentio...

Mas quem quiser saber o quanto encerra
Teu ser, de mais profundo e mais nevoento,
Venha aspirar-te no teu vaso -- a Terra --
Ó perigosa flor do esquecimento!"

(Cruz e Souza)

Tua Flor

Para quando me quiseres flor,
Amor...
E para quando assim eu for...


"Quando me queres rosa,
te faço sangrar em meus espinhos

Quando me queres lírio,
te faço provar do meu veneno

E papoulas e mandrágoras,
há flores tão perigosas...

Quando me queres tua,
sou ainda mais minha

Comigo-ninguém-pode,
serei tua erva daninha

E trepadeiras e marias-sem-vergonha
há flores tão sem propósito...

Mas quando me quiseres "tua flor",
trate de esquecer teu jardim

Quero teus amores-perfeitos,
todos, e só para mim"


Flor de estação
Efêmera
E fugaz que sou...

.

cama de gato

agora são dele as linhas
deito todas por ele
não são mais minhas...


ele se enrosca, embaraça
(gato vadio
faz nós de pirraça!)

mostra as garras, me arranha
(gato vadio
cheio de manha...)

desfia todo o novelo,
(gato vadio
e eu, lhe acaricio o pêlo...)

ronrona, treme, arrepia,
(gato vadio
fez que foi e não ia...)


e dorme sozinho na cama...
gato que é gato
só pede a quem ama...

"two sisters, exactly like umbrellas"


terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Saga do Negativo

CALMA
(con alma > c'alma)

Canto da Insubmissão

Eu que sou pedra e montanha, sangue e oeste,

negro poço do tempo e da memória,

mãos sujas no labor do subsolo,

apenas vos ofereço o choro vivo,

a revolta profunda e ignorada

dos homens solitários.


Somos os filhos do chão escuro, os frutos

sem planície e sem sol, os esquecidos

trabalhadores das minas tenebrosas.

Marinheiros do abismo

sem estrela e âncoras.

Caras de carvão, flores da treva, lírios

de luto brotando num jardim de turfas.


Homens duros e amargos, oriundos

de solidões calcáreas, escondemos

nosso protesto na ironia indócil,

não cortante como lâmina, pungente

como anedota de louco, confissões

de bêbado, música de cego.


É estranho esse modo de ferir, pedindo

desculpas. Amigos, perdoi-nos,

amigos, crede em nós, os homens tristes!

Sob a nossa máscara solene

existe um piedoso coração sangrando

por nós, por vós.


Um grito de mãe na tempestade, um morto

não identificado, uma janela

na noite do hospital, um pé descalço,

retirantes num carro de segunda,

um menino chorando numa esquina,

um homem fulminado numa praça,

a tecelã tossindo

sob a miséria coletiva, ou uma bandeira

no enterro do operário, tudo isso

nos comove, nos fere, nos afoga

em fundas cogitações e paralelos.


Um detalhe qualquer do drama humano,

da agonia milenária, prende

a nossa imaginação e acende o lume

de nossos poemas solidários.


No entanto, há céticos que aconselham: "Ingênuos,

por que esse apelo no deserto? Além

há poetas cantando a vida amena.

Fazei coro com eles. Os aplausos

coroarão os vossos ofertórios.

Dobrai a vossa espinha, erguei louvores

à farândula dos mitos!"


Impossível, embora

eu saiba que há rosas sob a lua,

plátonos dormindo na alameda intacta,

lotações de sereias, luminosas

vivendas na praia, entre piano e beijos,

autos deslizando como peixes no grande mar do tráfego,

e pernas oleosas, mãos de brinde

no espelho do champanhe, o baile, o sonho.

Impossível, pois sei também que existem

soluços e clamores,

lírios no charco, luta de afogados

contra as marés, o monopólio e a morte.

E isso me comove. Mais que o fogo

isso me ilumina e queima. Eu canto

a dor de meus irmãos, essa tragédia

do mundo desigual, da vida em pânico!


Eu que sou pedra e montanha, sangue e oeste,

negro poço do tempo e da memória,

só posso vos ditar, ao invés do leve

e inefável poema da alegria,

este canto sombrio, denso e amargo

como oceano de enigmas, doloroso

rio subterrâneo.


(Canto da Insubmissão - Bueno de Rivera)

No tempo do Giroflê...

"fui passear no jardim celeste
giroflê, giroflá"

(de novo)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"argamassa de sonho carne e areia"

NÃO SOU PRETO, BRANCO OU VERMELHO
TENHO AS CORES E FORMAS QUE QUISER.
NÃO SOU DIABO NEM SANTO, SOU EXU!
MANDO E DESMANDO,
TRAÇO E RISCO
FAÇO E DESFAÇO.
ESTOU E NÃO VOU
TIRO E NÃO DOU.
SOU EXU.
PASSO E CRUZO
TRAÇO, MISTURO E ARRASTO O PÉ
SOU REBOLIÇO E ALEGRIA
RODO, TIRO E BOTO,
JOGO E FAÇO FÉ.
SOU NUVEM, VENTO E POEIRA
QUANDO QUERO, HOMEM E MULHER
SOU DAS PRAIAS, E DA MARÉ.
OCUPO TODOS OS CANTOS.
SOU MENINO, AVÔ, MALUCO ATÉ
POSSO SER JOÃO, MARIA OU JOSÉ
SOU O PONTO DO CRUZAMENTO.
DURMO ACORDADO E RONCO FALANDO
CORRO, GRITO E PULO
FAÇO FILHO ASSOBIANDO
SOU ARGAMASSA
DE SONHO CARNE E AREIA.
SOU A GENTE SEM BANDEIRA,
O ESPETO, MEU BASTÃO.
O ASSENTO? O VENTO!..
SOU DO MUNDO,NEM DO CAMPO
NEM DA CIDADE,
NÃO TENHO IDADE.
RECEBO E RESPONDO PELAS PONTAS,
PELOS CHIFRES DA NAÇÃO
SOU EXU.
SOU AGITO, VIDA, AÇÃO
SOU OS CORNOS DA LUA NOVA
A BARRIGA DA RUA CHEIA!...
QUER MAIS? NÃO DOU,
NÃO TOU MAIS AQUI
Salvador, 17 de maio de 1993
Mario Cravo


domingo, 18 de outubro de 2009

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

TEMPORAL


mas há quem diga o contrário...

"E a imaginação hidrata. Eu não sei por que amo. Não me fale. Quem sabe deixou de amar. Sonhamos melhor com a certeza da companhia. Não chegarei, amor é estar a caminho. A fragilidade do vidro nasce da força e do ímpeto do fogo. Minha alma é masculina, o que me faz sensível para não provar mais nada. Qualquer jeito não é amor.
O amor não aceita amadores
. Quando se ama, acorda-se vestido para o milagre. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito."

(Fabrício Carpinejar)
"O AMOR É PARA AMADORES"

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

noite de sonhar separado

noite de dormir junto
e sonhar separado

é noite que a gente deita
talvez com o par trocado

e mesmo com a cama quente
não sente ninguém do lado

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ai do acaso, se não ficar do meu lado.

Faça os gestos certos,

o destino vai ser teu aliado,

ouço uma voz dizendo

do fundo mais fundo do passado.

Hoje, não faço nada direito,

que é preciso muito mais peito

pra fazer tudo de qualquer jeito.

Ai do acaso,

se não ficar do meu lado.

(Leminski)

de como passam os sonhos por mim



Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?

(Fernando Pessoa, 17-6-1932 / e a imagem é um recorte de "Water Snakes II", do Klimt)

Ice cream is gonna save the day, again...

There are people who are pushing me on the train
Screaming from the top of buildings
"you're gonna get what's coming"
And I dont know how to react
Or if I should fight back

He could have a knife
Stab me in the gut
Bleeding on the floor
Shoulda kept my mouth shut





.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O certo, para ela, era mesmo o errado.

Ela, que sempre foi de fazer tudo errado sempre, quis um dia fazer diferente.
Só para ver como era...
POR AMOR - fique claro. Por um amor que não conhecia e não esperava...
Um amor que foi maior que ela.
O amor que achava que merecia...
Talvez merecesse.
Resolveu, pela primeira vez na vida, optar pelo caminho certo. Sem atalho ou contramão.
Não deu certo.
O certo, para ela, era mesmo o errado.
Tentou ser sincera.
Sinceridade foi bobagem pouca, não serviu.
Acreditou. Sem armadura.
Ignorou os avisos, e os conselhos, deixou que entrassem por um lado e saíssem pelo outro.
Se deu, sem esperar nada em troca.
E recebeu. Antes não tivesse...
Talvez merecesse.
E ela deu tanto dela, que não sobrou nada.

"Foi assim.

De agora em diante, errado nem certo. Vou no meio.

Vou na minha.

Vou por mim.

E vou sozinha.

Até o fim."

- corro perigo

"Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado"

(Clarice Lispector)

A message to you...



...else you'll wind up in jail...

http://www.youtube.com/watch?v=s06-Sl5dfd0

do adultério / amante não!

"No adultério, há homens que preferem ser o marido, não o amante. Os homens adoram ser traídos."


(Nelson Rodrigues)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

o paradoxo, por excelência!

"Exu teve sede. Uma sede tão grande que toda a água de todas as jarras que ele tinha em casa, e que tinham, em suas casas, os vizinhos, não foi suficiente para matar sua sede! Exu foi à torneira da chuva e abriu-a sem pena. A chuva caiu. Ela caiu de dia, ela caiu de noite. Ela caiu no dia seguinte e no dia de depois, sem parar..."
(trecho de uma lenda yorubá)

senhor do acaso no meu destino
energia que em mim transborda
vai pelo caminho do meio
por transitar livremente entre os dois lados
sendo o terceiro
joga nos dois times
e aposta só na vitória
põe ordem no meu mundo
provocando o caos
me iludindo para revelar
mentindo para me mostrar a verdade
assoviando com o cachimbo na boca
sendo o elo entre meus opsostos
vai sim, sempre na minha frente
e equilibra, me equilibra
que eu também,
não sou de carregar peso

laroyê!

Oh! Alice!

era pra quem deve pagar
e pra quem merece receber

era pra chumbo trocado não doer

e dói
...


Volte Para o Seu Lar



volte para lá


domingo, 11 de outubro de 2009

Human Fly



and baby I don't care
'cause baby I don't scare...

sábado, 10 de outubro de 2009

Morituro


(AUGUSTO DE CAMPOS)

Tell me why

Tell me why
You cried
And why you lied to me

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

now she too does have likings for shadows

"Today near eventime I did lead
the girl who has no seeing
a little way into the forest
where it was darkness and shadows were.
I led her toward a shadow
that was coming our way.
It did touch her cheeks
with its velvety fingers.
And now she too
does have likings for shadows.
And her fear that was is gone"

(Opal Whiteley)


"pois eu também sou o escuro da noite"...

lágrimas

"As lágrimas são um rio que nos leva a algum lugar. O choro forma um rio em volta do barco que carrega a vida da alma. As lágrimas erguem seu barco das pedras, soltam-no do chão seco, carregam-no para um lugar novo, um lugar melhor. (...) O choro da mulher sempre foi considerado muito perigoso, pois ele abre os trincos e os ferrolhos dos segredos que ela carrega..."

(Clarissa Pinkola Estés, em "Mulheres que correm com os lobos")

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ia

"ia
te chamar mas não vou mais
o dia
já vem vindo lá de trás
(...)
num som
surdo o mundo quebra em mim
sem fim
esse instante seria
ia
desistir mas agora eu te espero aqui"




"NUNCA MAIS QUERO AMAR COM OUTRA COISA ALÉM DO CORPO"


(James Baldwin)

do que o acaso é capaz

atrasos do acaso
cuidados
que não quero mais

o que era pra vir
veio tarde
e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz

(Leminski)

na ponta da língua

Acordei com estes versos na ponta da língua...
Ansiosas, mais do que eu, as palavras queriam sair...

"Me rendo!
Quer comprar?
Hoje eu me vendo.
Mas cuidado, já aviso:
Se quiser, que corra o risco,
De pagar e não levar...

Escolha... escolha você, e eu veto.
Que a minha escolha já nasceu feita.
E onde vou não tem chão nem teto.

Enquanto isso, lá nem cá, vou no caminho do meio.
Sou deslocamento.
Vou sem certeza, mas também sem receio.
Sempre em movimento.

Só sei ser assim,
Infinita.
Sem começo, meio e fim...

SIM e NÃO!
Nunca talvez.
Sou duas, sou três...
Eu mesma, a contradição!

Prazer e dor.
Riso e gargalhada.
Medo e pavor.
Sei tudo e não sei de nada.
De sobra, só tenho amor.

Controversa? Paradoxal?
Demais para entender?
Pense então que não tenho moral...
Ou contente-se com o que puder ser.

Sou fluida, te escapo.

Te aceito, me recusando.
E te mastigo e engulo.
E te amo, te desprezando.
Te confundo.

E quando não é você
Pode sempre ser um outro.
Um ou outro.
Ou um e outro.
E o próximo, e seu próximo...
- O próximo!

Sou fogo, sou chama
Me encosta e vai queimar
Azar de quem me ama...
Tem medo? Vai arriscar?

Verdade?
Mentira.

Escolha, pode escolher...
Que hoje eu posso tudo
E ainda vou desmerecer..."

(pelas minhas 26 primaveras completas)

Gênesis (parto)

"Quando ele nasceu
foi no sufôco...
Tinha uma vaga, um burro e um louco
que recebeu seu sete...
Quando ele nasceu
foi de teimoso
com a manha e a baba do tinhoso.
Chovia canivete...
Quando ele nasceu
nasceu de birra...
Barro ao invés de incenso e mira,
cordão cortado com gilete...
Quando ele nasceu
sacaram o berro,
meteram faca, ergueram ferro...
Exu falou: ninguém se mete!
Quando ele nasceu
Tomaram cana,
um partideiro puxou samba...
Oxum falou: esse promete..."

(João Bosco / Aldir Blanc)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Vida é Sonho

"- É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é até despertar.
(...)
Que é a vida? Um frenesi,
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são."

(Pedro Calderón de La Barca, em A vida é Sonho, 1635)

meu 7


perfume de lavanda
água de cheiro pra me lavar

pra me dar luz, ânimo e força

onde estiver meu sorriso
comigo ele vai estar

e sempre que eu for sorrindo
meu Sete vai me guiar


"Lindo homem de cabelos negros e olhos de cristal, perfuma a minha vida com o perfume das sete rosas vermelhas."

RIP Mercedes Sosa

domingo, 4 de outubro de 2009

Salt Water

salt water
a lot of salt water
from my teardrops
from our sweat in the single bed
from the ocean
from the teardrops again...

salt water to purify
a lot of salt water
to welcome this new spring
to open the gates of this new cicle...
and a little bit of full moon rain water too
to bring good luck



sexta-feira, 2 de outubro de 2009

converting vegetarians

perto do osso a carne é mais gostosa

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos a fora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

(mais Leminski...)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

... mesmo assim você gosta de mim ...


você gosta...
eu sei do que você gosta...

(Mitar Subotic & Taciana Barros)

EU

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

(Leminski)

muito me interessa

"O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."

(Lispector... ela nunca sai daqui...)

Só pra variar...