quarta-feira, 30 de março de 2011

às pequenas coisas da vida...

dez

X

(...)É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
(...)É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.

(Hilda Hilst)

oito

VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.

(Hilda Hilst)

WATER

cor de rosa

segunda-feira, 28 de março de 2011

OS LÍRIOS

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranqüila.

(Heniqueta Lisboa)

Passagem da Noite

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos!
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

(Drummond)

Stop your messing around

terça-feira, 22 de março de 2011

"Interrogação"


(...)
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minh'alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço
(...)




(Camilo Pessanha, em CLEPSYDRA)

post mabon

ABENÇOADA SEJA A DEUSA DO AMOR, CRIADORA DE TODAS AS COISAS SELVAGENS E LIVRES. O CALOR DO VERÃO DEVE AGORA TERMINAR.
A GRANDE RODA SOLAR GIROU NOVAMENTE.
QUE ASSIM SEJA!
escrever, escrever...
bah! escrever!
escrever é para quando estou triste
ou menstruada...
naturalmente, inspirada...
quando estou feliz?
ah! eu tenho mais o que fazer!

metade

minha ..................sim
saudade. ..............singular.
................minha................meu

................metade........... ...par.

domingo, 20 de março de 2011

quando a cigana se engana

(impossível prever futuro
de amor em cima do muro)

segunda-feira, 14 de março de 2011

VII

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

(Hilda Hilst)

quinta-feira, 10 de março de 2011

sábado, 5 de março de 2011

and opening your door...

Dorme Acorda

"– A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda até que dorme e não acorda mais. É portanto um pisca-pisca.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.

– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?"

("Memórias da Emília", Monteiro Lobato)

soprando brasa

espalhei amor aos quatro ventos
cada um da sua direção
me respondeu soprando
era brasa e acendeu
agora está tudo queimando!

o "Sabe-Tudo"

o sabe-tudo tanto sabe
que pensa que sabe tudo que penso
e sabe tanto, o sabe-tudo
que sabe que sei que tanto é intenso
o sabe-tudo tão quase me sabe
que quando me encosta o ar fica denso

da minha banda

da banda de Seo Tranca Rua
de Seo Sete Encruza
de Seo Calinô
cheguei da banda de lá
molhada de chuva
e trazendo uma flor
vim mordendo um sorriso
sabendo que o mundo
é feito de dor