quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O MÍNIMO DO MÁXIMO

Tempo lento,
espaço rápido,
quanto mais penso,
menos capto.
Se não pego isso
que me passa no íntimo,
importa muito?
Rapto o ritmo.
Espaçotempo ávido,
lento espaçodentro,
quando me aproximo,
simplesmente medesfaço,
apenas o mínimo
em matéria de máximo

(Leminski)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

OWLS

tumbalaica

XV


Soneto do gato morto

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.

(Vinicius de Moraes)

Elegia para o Gato Morto

Com os olhos pregados no infinito,
no mais fundo de si, já revirados,
e os bigodes suspensos pelo grito
que alvoroça as pombas nos telhados,

e com o céu da boca, se aflito,
mesmo à beira do fim, agoniado,
e o pêlo sedoso, tão esquisito,
de súbito a ficar amarrotado,

na procura apressada de outra vida
renascida das sete que viveu,
que não vê, não encontra, pois perdida
como alma penada lá no céu

dos gatos: foi assim, quase descrente,
que vi o gato morto, de repente.


(Domingos da Mota)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ìyá Mi Osorongà



(quem estiver sentado deve-se levantar,
quem estiver de pé fará uma reverência)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

IYAMI AKÒKO



“Oxum, mãe de clareza
Graça clara
Mãe de clareza.
Enfeita seu filho com bronze
Fabrica fortuna na água
Cria crianças no rio.
Brinca com seus braceletes
Colhe e acolhe segredos...
Fêmea força que não se afronta
Fêmea de quem macho foge.
Na água funda se assenta profunda
Na fundura da água que corre.
Oxum do seio cheio
Ora Ieiê, me proteja
És o que tenho
– Me receba”.

(Risério;1996:151)
Concha, mas de orelha;
Água, mas de lágrima;
Ar com sentimento.
- Brisa, viração.
Da asa de uma abelha.

(Manuel Bandeira, sobre
Cecília Meireles e sua poesia).

Canção (outra)

Não sou a das águas vista
nem a dos homens amada;
nem a que sonhava o artista
em cujas mãos fui formada.
Talvez em pensar que exista
vá sendo eu mesma enganada.

Quando o tempo em seu abraço
quebra meu corpo, e tem pena,
quanto mais me despedaço,
mais fico inteira e serena.

Da virtude de estar quieta
componho o meu movimento.
Por indireta e direta,
perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
e a seta, ― em cada momento.

Não digas aos que encontrares
que fui conhecida tua.
Quando houve nos largos mares
desenho certo de rua?
E de teres visto luares,
que ousarás contar da lua?

(Cecília Meireles)

domingo, 7 de novembro de 2010

Adivinhação

"O que é, o que é...
Uma árvore bem frondosa,
Doze galhos, simplesmente,
Cada galho, trinta frutas,
Com vinte e quatro sementes?"


(In Meu livro de folclore, Ricardo Azevedo)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

da sombra

Odeio fim de ano. Festas, Natal e Ano Novo. Odeio essa época quando as pessoas ficam ainda mais falsas e hipócritas. Odeio ganhar presentes de gente que nem gosta de mim, só porque é Natal. Ou ter que viajar só porque é Reveillon. Odeio pelos animais descartados, jogados fora, porque seus donos saíram de férias. Odeio tanto bicho morto morto nas mesas. Um presépio inteiro para cada refeição. E pinheiros cafonas de mentira, e luzes pisca-pisca... Para mim, todos os dias são iguais e todo dia é dia. E todos os dias são só espaços de claridade entre uma escuridão e outra. Eu não ligo para os dias, aprendi a ver no escuro. Quando todos preferem fechar os olhos, eu arregalo os meus. Eu vivo na sombra.