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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Dona Flor


"Me diga o senhor, que escreve nas gazetas: por que se há de precisar sempre de dois amores, por que um só não basta ao coração da gente? (...) O mais, que o senhor sabe, naquilo mesmo, não tem conserto quem é torto. Minhas madrugadas, nem lhe conto, seria falta de respeito."

(Bilhete de Dona Flor para Jorge Amado)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Eu sou uma flor.



" Será como a flor. Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."

" Sois belas, mas vazias. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus a redoma. Foi a ela que abriguei com o para-vento. Foi dela que eu matei as larvas. Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa."

"Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla."




(Antoine de Saint-Exupéry)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

poesia concreta


Quero ser livre da hora,
livre do agora,
livre do tempo,
do ontem, do amanhã.
Quero ser livre no corpo,
livre no gosto,
livre no toque,
no pecado da maçã.
O desejo é irreversível,
a paixão visível,
orvalho, aroma fresco de hortelã...
Meu verbo rasga a noite
anunciando o clarão
Poeira se levanta
Movimento se lança
Quando miro os olhos na imensidão...
Sinto o vento na cara
e o tempo não pára
Sinto o tempo na cara
e o vento não pára
Para acordar
Preciso sonhar
No ar, voar, contemplar
No chão, andar, rastejar

(Cacau Brasil / "omisteriootempoempoesias")

domingo, 25 de outubro de 2009

Tu sabes

VI

(...)

Teu recesso.
Teu encostar-se
Às duras paredes
De tua sede.

Teu vício de palavras.
Teu silêncio de facas.
As nuas molduras
De tua alma.

Teu magro corpo
De pensadas asas.
Meu verso cobrindo
Inocências passadas.
Tuas.

Imagina-te a mim
A teu lado inocente
A mim, e a essa mistura
De piedosa, erudita, vadia
E tão indiferente.

Tu sabes

(...)


Hilda Hilst, em POEMAS MALDITOS, GOZOSOS E DEVOTOS

Le Petit Prince



aquarelas: Antoine de Saint Exupéry, da edição de 1978

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Les Belles Images

"Querer ser livre é também desejar que os outros sejam livres"

(BEAUVOIR, Simone de/Les Belles Images, 1966)





o próximo...

It's Mee!

A Flor-do-Luar do Rio Negro, 1988


"Ao permanecer imóvel, com o escuro contorno da floresta ao meu redor, me senti enfeitiçada. Neste momento, a primeira pétala começou a se mover, e outra após outra, enquanto a flor rompia para a vida. Abria-se muito rapidamente. Continuamos assistindo, com a fraca iluminação de uma tocha e com a luz da Lua cheia que subia pela orla escurecida da floresta. Nos primeiros estágios, a flor exalou um perfume extraordinariamente doce e ficamos todos fascinados com sua beleza e delicadeza. Para nossa surpresa, ela ficou enorme e totalmente aberta em uma hora.Enquanto desenhava, desejei que chegasse um polinizador, que os especialistas acreditam ser uma mariposa ou talvez um morcego. Nossa vigília durou toda a noite e cheguei à conclusão de que nossa intromissão acabou por importunar o equilíbrio desenvolvido durante dezenas de milhões de anos. (...) A “Flor-do-Luar” fechou-se antes do amanhecer. Pássaros deixavam seus ninhos e sobrevoavam as ilhas. Um tucano apareceu úmido de orvalho sobre a copa de uma árvore. Uma elegante garça pescava. É o amanhecer de um outro dia."


(Flores da Floresta Amazônica - A arte botânica de MARGARET MEE)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ísis Sem Véu

"Nos nossos sonhos", diz Paracelso, "somos como as plantas, que também possuem o corpo elementar e vital, mas não o espírito. No nosso sono, o corpo astral é livre e pode, pela elasticidade da sua natureza, pairar ao redor do seu veículo adormecido ou erguer-se mais alto, para conversar com os pais estrelares ou mesmo comunicar-se com os seus irmãos a grandes distâncias. Os sonhos de caráter profético, a presciência e as necessidades atuais são as faculdades do espírito astral. Esses dons não são concedidos ao nosso corpo elementar e grosseiro, pois com a morte ele desce ao seio da Terra e se reúne aos elementos físicos, ao passo que muitos espíritos retornam às estrelas. Os animais", acrescenta, "têm também os seus pressentimentos, pois também têm um corpo astral".

(Helena Petrovna Blavatsky, em "Ísis Sem Véu", de 1877)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

"A Bruxa e a Arte do Sonhar"

"No caminho do guerreiro, mulheres não se sentem importantes porque importantes marés caem furiosamente. No caminho do guerreiro, mulheres são a fúria. Elas permanecem furiosamente impassíveis sob qualquer circunstância. Elas não exigem nada e, ainda assim, estão prontas para dar qualquer coisa de si mesmas. Elas procuram furiosamente um sinal do espírito das coisas na forma de palavras ou de um simples gesto e, quando conseguem achá-lo, expressam sua gratidão redobrando sua fúria. No caminho do guerreiro, mulheres não julgam. Elas se reduzem furiosamente a nada para poder ouvir e ver; só assim poderão vencer, sendo humildes pela sua conquista, ou perder, sendo realçadas pela sua derrota. No caminho do guerreiro, mulheres não se rendem. Elas podem ser derrotadas milhares de vezes, mas nunca rendidas. No caminho do guerreiro, acima de tudo, as mulheres são livres."

(Florinda Donner-Grau, em "A Bruxa e a Arte do Sonhar")

terça-feira, 11 de agosto de 2009

"Mulheres que correm com os lobos"



"Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas."

(Clarissa Pinkola Estés, em "Mulheres que correm com os lobos")
(arte: Jackson Pollock "The She Wolf")



quinta-feira, 2 de julho de 2009

"Os contos de fadas são assim:
Uma manhã, a gente acorda
E diz 'Era só um conto de fadas...'
E a gente sorri de si mesmo.
Mas, no fundo, não estamos sorrindo.
Sabemos muito bem que os contos
de fada são a única verdade na vida."

(O Amor do Pequeno Príncipe / Cartas a uma desconhecida - Antoine de Saint-Exupéry)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

(...)
talvez um erro haja sido
acreditar-se nos astros
quando existe o livre arbítrio.
(...)
descubra o céu um caminho,
mas eu duvido, em verdade,
de que possa descobri-lo,
quando em tão confuso abismo,
todo céu é um presságio
e todo mundo um prodígio."

(mais de "A Vida É Sonho" - Calderón, 1635)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

do passeio da noite passada

e a noite, por mais fria
nunca pôde ser vazia...

nem ter hora para voltar

só as ruas e avenidas
atravessam o bairro em silêncio

depois,
sentindo o gosto do infinito*
e cheiro de livros velhos

ler poesia em outras línguas

e voltar
a (en)sonhar

e dormir
p'racordar






*em alusão a Baudelaire, em Le goût de l'infini - Paradis Artificiels - que caiu no chão bem na minha frente, na biblioteca, "por acaso"

"Al Aaraaf"

(...)
Thus, in discourse, the lovers whiled away
The night that waned and waned and brought no day.
They fell: for Heaven to them no hope imparts
Who hear not for the beating of their hearts.

the end
.

(Edgar Allan Poe, "Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems" - 1829)

do passeio de ontem à biblioteca...

terça-feira, 26 de maio de 2009

"Uma Temporada no Inferno"

"(...) Antes, se lembro bem, minha vida era um festim em que se abriam todos os corações, todos os vinhos corriam. Uma noite, fiz a Beleza sentar no meu colo. E achei amarga. Injuriei. Me preveni contra a justiça. (...) Aguardo deus com gula. (...) Por hora sou maldito, tenho horror da pátria. O melhor é um sono bêbado na praia. (...) A gente não parte. Retoma o caminho, e carregando meu vício, o vício que lançou raízes de dor ao meu lado desde a idade da razão, e sobe ao céu, me bate, me derruba, me arrasta. (...) Engoli um senhor gole de veneno. - Três vezes abençoado seja o conselho que me deram! - As entranhas me ardem. A violência do veneno torce meus mebros, me torna disforme, me prostra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo se ergue! Queimo como deve ser. (...) Pobre inocente! - O inferno não pode acometer os pagãos. - É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da danação vão ser mais profundas. (...) Sinto cheiro de queimado, é certo. As alucinações são inumeráveis. É bem o que eu sempre tive: não mais fé na história, o esquecimento dos princípios. Não falo deles: poetas e visionários teriam inveja. Sou mil vezes mais rico, sejamos avaros como o mar. (...) Ah isto! o relógio da vida parou há pouco. Não estou mais no mundo. - A teologia é séria, o inferno é sem dúvida embaixo - e o céu, no alto. - Êxtase, pesadelo, sono num ninho de chamas. (...) Minha fraqueza, a crueldade do mundo! - Estoiu oculto e não estou. É o fogo que cresce, com seu condenado. (...) Ah! Sofro, grito. Sofro realmente. Mas tudo me é permitido, cheia de desprezo pelos corações desprezíveis. (...) Para mim. A história das minhas loucuras. (...) Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens. (...) Tive razão em desprezar os bons sujeitos que não perderiam a ocasião de uma carícia. (...) Tive razão em todos os desdéns; pois vou me evadir! (...) Uma vantagem é que posso rir dos falsos amores e causar vergonha a esses casais mentirosos - vi o inferno das mulheres - e me será lícito possuir a verdade numa alma e num corpo."

(Rimbaud, em fragmentos de "Mau sangue", "Noite do inferno", "Delírios I - Virgem louca", "Delírios II - Alquimia do verbo", "O impossível" e "Adeus" / poemas em prosa, reunidos em "Uma Temporada no Inferno" do outono de 1873)

e para não dizer que faltou verso:

"Mon ême éternelle,
Observe ton voeu
Malgré la nuit seule
Et le jour en feu.

Donc tu te dégages
Des humains suffrages,
Des communs élans!
Tu voles selon...

- Jamais l'espérance.
Pais d'orietur."

(em "Faim", da Alchimie du Verbe , do mesmo livro, do mesmo outono...)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

da leitura de ontem a noite...

Rimbaud, "Uma Temporada no Inferno"

prosa...
fui ao limbo e voltei - ilesa...
ele foi ao inferno e por lá ficou - e escreveu:

"Oh, todos os vícios, cólera, luxúria - magnífica, a luxúria - , sobretudo a mentira e a preguiça. (...) Sem me servir para viver de fato do meu corpo (...) tenho vivido por toda parte. (...) A quem me alugar? Que animal é preciso que adore? Que santa imagem nos agredirá? Que corações partirei? Que mentira devo sustentar? Em que ânimo avançar? (...) Recebi no coração o golpe da graça. Ah! não tinha previsto isso. Não fiz o mal. Os dias me serão leves, o arrependimento poupado. (...) Rápido! existem outras vidas? (...) O tédio já não é meu amor. As raivas, as farras, a loucura, de que sei todos os ímpetos e os desastres - larguei meu fardo inteiro. Vejamos sem vertigem a medida da minha inocência. (...) Não sou prisioneiro da minha razão. (...) Não sinto falta da moda dos corações sensíveis. Cada um tem sua razão, desprezo e caridade: mantenho o lugar no topo dessa angélica escada de bom senso. Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não posso. Sou dissipado demais, fraco demais. A vida floresce pelo trabalho, velha verdade: eu, minha vida não é tão pesada, se alça e flutua longe acima da ação, essa apreciada exigência do mundo. (...) Farsa permanente! Minha inocência me fará chorar. A vida é a farsa a levar por todos. (...) Ah! Os pulmões ardem, as fontes pulsam! A noite me passa pelos olhos, neste sol! (...) Fogo! fogo em mim! Aqui! ou me rendo. (...) - Me acostumarei."

(em Mau Sangue) tradução de Paulo Hecker Filho

domingo, 26 de abril de 2009

[sem título]

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E não sou de ninguém... Quem me quiser
Há de ser luz do sol em tardes quentes,
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas da vidente!

Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...

Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!

(Florbela Espanca) ela voltou - estou lendo o Vol. II...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Arte de Amar

(Toulouse Lautrec, "The Kiss" 1892)

"Mais violentamente o Amor me transpasse, mais violentamente ele me abrase, melhor saberei me vingar das feridas que ele me fez."

...esse é o Ovídio, que já citei aqui, dentro de uma outra citação... e agora citarei por mim mesma... os meus preferidos! Tão antigo, tão atual, tão espiral, infinito...


"Nada é tão bom quanto o que é vergonhoso; cada um só pensa em seu prazer, e até aquele que procura fazer o outro sofrer tem seu charme. Que escândalo!"

"Frequentemente, com a aproximação do outono, quando o ano está na sua mais bela época, quando as uvas ficam cheias de um suco acobreado, quase vermelho, quando sentimos aos poucos um frio que nos aperta ou um calor que nos distende, esta inconstância de temperatura fatiga o corpo."

"Poucos prazeres e muitas penas, eis o quinhão dos amantes: que eles preparem sua alma para numerosas provas."

"Perigosa é minha empreitada, mas, sem perigo não há mérito."

"Não há amor que ceda lugar a um outo amor que o substitui."

"Há remédios que não podem ser impostos, mas que, quase sempre, tomados por casao podem ser úteis."

"O vinho predispõe nossa alma para o amor, se não o tomarmos demais, e que nossos sentidos, afogados por abundantes libações, não fiquem entorpecidos. O vento alimenta o fogo, o vento o apaga; ligeira, uma brisa alimenta a chama; muito forte, ela a sufoca. Mas nenhuma embriaguez, ou uma embriaguez tal que leve todas as inquietações amorosas; um estado intermediário é perigoso."

(Ovídio - 43 a.C. a 17 d.C. / em "A Arte de Amar" )

quarta-feira, 22 de abril de 2009

o último do livro

vou citar a Florbela, o último dela, pelo menos até que eu leia o vol.II...
escolho estas, porque me vejo nelas:

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!"

e encerra-se aqui a participação da Florbela, e dessa vibe spank love dela... ao menos por hora, por agora...