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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A Mulher Desiludida

"Uma porta fechada, qualquer coisa que espreita, atrás. Ela não se abrirá se eu não me mexer. Não mexer. Jamais. Parar o tempo e a vida. Mas eu sei que me mexerei. A porta se abrirá lentamente e eu verei o que tem detrás. É o futuro. A porta do futuro vai se abrir. Lentamente. Implacavelmente. Estou no limiar. Só existe esta porta e o que espreita atrás dela. Tenho medo. E não posso chamar ninguém por socorro.
Tenho medo"
("A Mulher Desiludida" - Simone de Beauvoir) 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."

(Guimarães Rosa)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Maya

"O que existe em mim que é tão dificil de compreender?
Eu danço a energia universal
sempre em movimento
sempre ativa
Você nunca pode me ver
pois estou velada
e esse véu é um produto adicional
do que faço
do que sou
Vá mais fundo
não seja apanhada na magnificência da minha criatividade
Minha criação é a ilusão
por trás da qual está o conhecimento
de que toda matéria é energia
e toda energia é uma coisa só."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Eu No Sol

Fiquei distante. Estava no Sol...
Se era manhãzinha, eu de olhos entreabertos, absorvia a luz, e tudo que eu via eram os cílios dourados do Sol roçando os meus. Bom dia. Assim, de um sonho para outro. Logo estava quente. E os dias eram quentes, todos...

domingo, 24 de abril de 2011

AlQuímica

Se é só química eu não sei. É, para mim, antes, mágico. Alquímico talvez...Bruto, diamante. Bruto, de amante...

sábado, 5 de março de 2011

Dorme Acorda

"– A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda até que dorme e não acorda mais. É portanto um pisca-pisca.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.

– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?"

("Memórias da Emília", Monteiro Lobato)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Meu ser de misericórdia

Com meus olhos de cão paro diante do mar. Trêmulo e doente. Arcado, magro, farejo um peixe entre madeiras. Espinha. Cauda. Olho o mar mas não lhe sei o nome. Fico parado em pé, torto, e o que sinto também não tem nome. Sinto meu corpo de cão. Não sei o mundo nem o mar a minha frente. Deito-me porque meu corpo de cão ordena. Há um latido na minha garganta, um urro manso. Tento expulsá-lo mas homem-cão sei que estou morrendo e que jamais serei ouvido.

Hilda Hilst

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

lusco fusco

Agora, escuridão. É o que tem para hoje, a noite. E não há melhor hora para enxergar as coisas da sombra, que a claridade teimou em esconder. Coisas que tentaram fugir com o dia, camufladas no lusco fusco... (como se eu nao soubesse do poder dessa hora - e dessa outra, agora...) nesses raros instantes, diários, de tempo quase suspenso, entre dia e noite, sendo nem um nem outro. Não sendo. E quase ninguém percebe...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

do Amor

Este estranho, que vivo procurando, tempos afora, noites adentro. Este velho conhecido distante, que eu nunca alcanço, pois estou sempre olhando à frente, enquanto ele me persegue. Acho que é ele, o Amor, que me acorda todas as manhãs com o mesmo encanto da primeira, e ainda serve meu café na cama depois do meio dia. E nas noites muito quietas, quando não durmo, me faz companhia em silêncio. E não enxuga minhas lágrimas nem pede que eu não as derrame. Me aceita, com lágrimas e tudo, de onde quer que elas venham. E de alguma forma, me adormece. Que é tão fácil, que eu descreio, e recuso. E de tão simples, eu torno confuso. O Amor... que eu busco sabendo já me encontrou, que ainda espero que venha seja lá de onde for, e que chegue e se anuncie. Então, quem sabe, eu ainda duvide. E continue minha caçada solitária e sem presa. Na eterna espreita de alvo que queria ser flecha.

que o meu amor não tem tempo
embora às vezes passe da hora

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Além da hora / A lenda do agora

Quanto eu não sei de mim? O quanto eu sou esquerda, avessa, contrária e contraditória. Eu podia culpar a lua cheia, as estrelas, a rua, a música, as meninas. Eu podia me desculpar. Eu podia não me culpar também... Mas eu quero tudo e quero mais. Ou mais. E acabo sempre ficando com o "a mais". E tendo cada vez menos. Eu me desfaço, e me recrio. Eu me invento solta... Mas quando tudo acaba, a música pára, a lua se esconde, e a noite esfria, vira madrugada quase dia, a vontade passa, e eu quero o pouco. Aquele pouco que esqueci querendo mais... Quero consistência e calor. Humano. Só. Quero ser levada, se for no colo, melhor. Quero me sentir segura e protegida, para esquecer que sou tão livre assim. Falta que eu me engane um pouco, pro sono poder chegar. Falta que alguém me segure com força, para o mundo parar de rodar. Falta que eu sinta calor, que me desenrosque de quem me abraçar... Para que arrependida, e com frio, eu torne a me enroscar. Mas quero isso sempre, mas sempre pra depois, nunca na minha hora. E o pouco de antes sempre falta. Durmo sem, depois. Quero tudo na hora, mas meu agora vai além. Meu relógio conta um tempo que é só meu, de mais ninguém. E hoje eu acordei pensando...Que eu queria sim, o plano de ontem, só que "embrulhado para viagem..." Pra depois do fim... Ou não...

domingo, 19 de dezembro de 2010

BEL - SAO ( ou "um conto de ar")


Avião sempre me deixa estranha. Viagem sempre me deixa estranha, qualquer coisa que se mova demais comigo dentro... Enfim... Estava me acostumando com a iminente estranhez, e me distraindo do vôo (ou tentando). A viagem tinha sido incrível, ainda podia sentir o cheiro de mato em mim. Viajei comigo mesma, e mais, viajei para dentro de mim mesma. Cansada, voltar de madrugada, fila, check-in, fila... "Vou despachar essa malas e comprar alguma(s) coisa(s) passar o tempo..." E falando sozinha, pensando alto (alto demais, talvez) sinto aquele arrepio, quase um frio, que agente sente quando alguém está olhando. E certeira, olho para trás, e encaro os olhos que me fitam. E o frio corre a espinha, frio² agora. Gelado. E então, todo sangue esquenta, de um só jorro, de uma só vez. Talvez, só as mulheres entendam esse sentimento, que está mais para sensação, do que sentimento propriamente. Esse sentir com o corpo... Esqueci que ia voar, esqueci o quanto odeio fila, e esqueci que qeria sair dali. Eu não queria definitivamente sair dali. Nunca mais. Queria ficar ali, segurando aquele olhar para sempre. E vendo tudo ao redor, sem tirar a mira. Eu vi cada detalhe daquele homem que me olhava olhando apenas em seus olhos. Por alguns poucos segundos. E outros que vieram a se repetir depois, incessantemente... Acabou minha fila, chegou minha vez. Rápido. E sem olhar para trás, fui fazer compras! Mulherzinha... Devo ter entrado em todas as lojas do aeroporto, e na última, estou escolhendo uma blusa, distraída, de repente: "- Essa cor fica ótima em você" - Era ele! Nem precisei me virar para saber, outra vez, o saber do corpo. E "ele" era o homem mais bonito que eu já vi. Porque eu já vi muitos meninos bonitos... Mas ele era Homem. Ele era O Homem. Parecia um deus, que não sei qual, ele parecia de sonho, nem parecia real... Ele era diferente, por isso, eu nunca vou me esquecer dele: alto, bem alto, muito forte e moreno. Tatuado. A parte dos braços que ficava à mostra era coberta por tatuagens, que faziam limites com as piores cicatrizes que eu já vi também. Que iam até as mãos. E as mãos eram lindas, e grandes. Impossível não olhar, impossível não encarar. Eu nem tentei... Não me lembro de ter dito alguma coisa. Penso que não. Não me lembro nem de ter sorrido sequer, estava em choque. Não pelas cicatrizes, mas por ele. Por todo ele, com tatuagem, voz grossa, cicatriz, músculos. Pela presença e pela densidade do ar quando ele estava perto. Ele saiu da loja, e as vendedoras comentaram sobre ele, sobre as cicatrizes. "- ...Né?" disse uma delas. Concordei com a cabeça. Eu não conseguia pensar em outra coisa, mal ouvi o que elas disseram. Ele estava no meu vôo. E sobre as cicatrizes, eu só tentava imaginar como ele teria as conseguido. Nas mãoes dele, e aos meus olhos, elas eram um troféu. E se ele era de São Paulo, e estava voltando, ou se era de lá, e estava chegando... E para onde iria, e o que faria, e se teria alguém esperando por ele (eu tinha) e se, e se, e se... Sala de embarque. Café. Ele lia. E agora eu estava nervosa. Voltei para o vôo, e para minha estranhez. Mas agora tinha a estranhez dele. E a "estranhez" da situação, dele me ajudando com as malas, enquanto eu, hipnotizada, fitava sem parar os braços daquele homem, tatuados, marcados, fortes. Agradeci, com a pressão baixa, e provavelmente pálida, e me sentei. Ele, simples, sem malas, sentou também. Na fileira oposta, uma ou duas poltronas atrás. Com a minha poltrona reclinada, havia uma linha reta entre nossos olhares. Tudo que eu quis foi que nesso vôo, sobrassem lugares. Não sobraram. Viemos nos fitando, por essa linha imaginária, cruzando os olhares, como numa encruzilhada. Da qual ninguém quis sair "todos os caminhos, nenhum caminho..." Horas a fio... Não dormimos, não falamos, não nos levantamos. Apenas nos olhamos. A madrugada virou dia, virou o amanhecer mais lindo que eu já vi também... O universo concordava comigo. Ele era, era ele... O avião pousou, e saímos, um para cada lado. E meu olhar perdeu para sempre a melhor visão de todas, a melhor troca. Inconformado, procurava aflito. Eu via, no chão, todas as pessoas que estavam no avião. Menos "ele". Chovia, fino e gelado. Entrei no carro, e voltei à vida. Foi sonho? Não sei... Não sei o nome dele, e muito menos se algum dia, outra vez o verei... Diz que o mundo é pequeno... Do que eu conheço é bem grande... Quem sabe? Que importa? Eu não esquecerei... E, tomara, sonharei! Grande ou pequeno, sei que o mundo gira... Talvez outra hora, ele volte para minha mira...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Eu e Ele

Ele era o espelho da minha alma. Era eu, e meu oposto. Eu se fosse homem, era ele. Que ele fosse mulher, então era eu. Ele trouxe à tona tudo que eu tinha de mais belo, puro e luminoso... Então, diante da luz, percebi a vastidão da minha sombra - na sombra dele. Eu queria, ele fazia. E se eu não queria, aí que ele fazia o dobro. Ele pensava que eu não sentia, e eu não acreditava que o que eu fazia, nele, doía. Eu não sabia. E ele queria, mas eu fingia, e fugia. Quando eu dizia a verdade, era ele quem me mentia. E quando ele chorava, eu - sem graça, ria. Eu quis tudo, e ele me deu pouco. Ele quis pouco. Eu não dei nada. Ele fazia, porque sabia que eu gostava. E ao invés de agradecer, eu reclamava. O começo partiu dele, mas eu deixei que ele acreditasse que foi de mim. Errado. Ele corrigiu, pondo ele mesmo um fim. E sendo igual eu, deixou que eu pensasse que fui eu quem quis assim. Mas foi sem querer, porque eu não queria, e sei que muito menos ele, que tivesse sido assim. Fomos avessos. O errado pra ele, dava certo pra mim. Tão diferentes e tão iguais. Tão opostos. Tão fatais. O que ele chamou de amor, eu conheci por dor. Da roseira onde sangrei nos espinhos, ele - de graça, arrancou a flor.

"quero é uma verdade inventada"

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.
O que te direi? te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver? ai de mim que tanto morro. Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas. À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.

(Clarice Lispector, em "Água Viva")

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

da sombra

Odeio fim de ano. Festas, Natal e Ano Novo. Odeio essa época quando as pessoas ficam ainda mais falsas e hipócritas. Odeio ganhar presentes de gente que nem gosta de mim, só porque é Natal. Ou ter que viajar só porque é Reveillon. Odeio pelos animais descartados, jogados fora, porque seus donos saíram de férias. Odeio tanto bicho morto morto nas mesas. Um presépio inteiro para cada refeição. E pinheiros cafonas de mentira, e luzes pisca-pisca... Para mim, todos os dias são iguais e todo dia é dia. E todos os dias são só espaços de claridade entre uma escuridão e outra. Eu não ligo para os dias, aprendi a ver no escuro. Quando todos preferem fechar os olhos, eu arregalo os meus. Eu vivo na sombra.

domingo, 31 de outubro de 2010

cruzado (ou "cruzando a linha das senhoras")

então, depois de um sonho, de um transe de sonho, acordo e tenho que agora compreendi a dança das senhoras daquela jurema... uma a uma fomos colocadas em nossos lugares, e naquela formação, era natural que todas soubéssemos o que fazer, embora ninguém nunca tivesse nos ensinado propriamente... éramos um círculo vibratório, seguido por mais um círculo, outra linha, porém, compartilhando os elementos...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

fluida

À flor da pele de meus versos correm rios de sangue. Minha rima tem veias, que a fazem viva. Minha prosa tange marés, enchente e vazante, num fluxo cíclico e contínuo. E quando o sangue não mancha palavras, lágrimas umedecem frases, dando liga à poesia. Verso o amor tranquilo, suave feito garoa. À margem da dor transcrevo sons de trovão. Sonho acordada olhando a lua, e mudo com ela a cada nova fase. Fluida, escrevo gotas de luz, para aclarar minhas sombras.

sábado, 11 de setembro de 2010

"De repente já estou no fim dos 20

e não tenho nada do que as pessoas costumam ter nessa idade. Tenho planos, claro (todo mundo tem). Mas objetivamente estou sem nada aqui à minha frente. O momento futuro é uma incógnita absoluta. Eu não posso pensar ‘não, daqui a um ano eu vou pro campo ou eu caso ou eu me formo ou eu vou à Europa’. Eu não sei. Fico esperando que pinte alguma coisa, naturalmente. E essa falta de ação me esmaga um pouco."


(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

a morte não existe...

‎"Um herói nasce quando inimigo vacila. Quando ele comete o maior dos erros: achar que pode acabar com tudo. Mas é nessa hora que ele acaba de fazer tudo começar"

(do filme "BESOURO")

terça-feira, 31 de agosto de 2010

azulão

Custou acreditar, quando viu a menina entrar, e sentar - suave e doce - quando antes, lá fora, sentia que havia um guerreiro. Foi jogando, interessado. E dizendo tudo que via, enquanto ela, só ouvia.... Mas quando ela pergunta, tímida, a concha cai certeira. Diz que pode ser só por agora, mas era ele, o que vem primeiro.
Na gira, quando ela chega, mandam chamar o vento - ora pra soprar pra longe, ora pra ser brisa leve. E quando chega muito aflita, cantam logo o Tempo, pra curar outra interpérie... Tempo, Tempo, Tempo, Tempo... Vez ou outra pra chover de novo, fazer arco-íris, para ela escolher uma cor... Gira ela para um lado, gira para o outro... Ensina a contar certo, sem tropeçar nas vírgulas... Banho de ervas, flores, moedas, búzios, pedrinhas... presentes do Tempo...
Dançam com ela.
Por fora, o que se vê, é só o que o espelho que ela carrega reflete. Assim, doce mesmo...
Por trás da suavidade é que habita o cavaleiro. Com o reflexo do espelho, dissimula o alfange na outra mão. Como que na espreita, de tocaia. E que ninguém acenda sua fúria! Infantaria, linha de frente. Venha o que vier, ele já espera, quente.
O colar dele é o primeiro, e vai cruzado. Depois vem os outros. Os dela, de sempre, e essa noite, escondido, o emprestado. O pano da costa, um dia, também vai atravessado. É dele.
Ela é dele. Está mais que confirmado.
É da guerra por excelência, nunca soube o que era paz. E quando não há motivo, inventa um, tanto faz.

sábado, 7 de agosto de 2010

da vontade

E ali dentro está a vontade, que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade e do seu vigor? Pois Deus não é mais que uma grande vontade, penetrando todas as coisas pela qualidade da sua aplicação. O homem não se entrega aos anjos, nem se rende inteiramente à morte, se não pela fraqueza de sua débil vontade.
Joseph Glanvill