sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
O MEDO
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
(Carlos Drummond de Andrade)
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
(Carlos Drummond de Andrade)
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
tempo(des)obediência
obediente sim!
guarde seu tempo
todo para mim
quando eu eu disser tchau
vá embora
e quando eu chamar
volte, sem demora
guarde seu tempo
todo para mim
quando eu eu disser tchau
vá embora
e quando eu chamar
volte, sem demora
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Ensonhadora,
me deito na areia, à sombra de um chapéu-de-sol... o vento balança as folhas fazendo barulho, e eu, ouço atentamente... e compreendo, numa fração de segundos, na sutileza do instante, a brevidade da vida e o segredo de todas as coisas...
Estou pronta!
Como o vento, já balancei muitas folhas, posso soprar em outra direção...
Como a menina, deitada sob a árvore, já entendi - mesmo que por um breve momento - o mistério da vida... e ainda que esse entendimento tenha me fugido segundos depois, aceito...
Estou pronta!
Já posso partir... Voar, sozinha, p'ronde o vento me deixar ir!
Escrevedora, rabisco em algum lugar, alguma coisa... Que eu possa dormir, esquecer, sonhar, mas que esteja bem claro ainda, quando acordar...
E a noite me abraça. Durmo, sonhando o ensonho de outras noites, de outras vidas. Todos sem fim, para não haver despedida.
Estou pronta...
Só resta saber onde fica a saída...
Estou pronta!
Como o vento, já balancei muitas folhas, posso soprar em outra direção...
Como a menina, deitada sob a árvore, já entendi - mesmo que por um breve momento - o mistério da vida... e ainda que esse entendimento tenha me fugido segundos depois, aceito...
Estou pronta!
Já posso partir... Voar, sozinha, p'ronde o vento me deixar ir!
Escrevedora, rabisco em algum lugar, alguma coisa... Que eu possa dormir, esquecer, sonhar, mas que esteja bem claro ainda, quando acordar...
E a noite me abraça. Durmo, sonhando o ensonho de outras noites, de outras vidas. Todos sem fim, para não haver despedida.
Estou pronta...
Só resta saber onde fica a saída...
do caminho...
II
"Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas."
(Manoel de Barros)
"Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas."
(Manoel de Barros)
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
44 dias seguidos de chuva em São Paulo
"O céu desmoronou-se em tempestades de estrupício e o Norte mandava furacões que destelhavam as casas, derrubavam as paredes e arrancavam pela raiz os últimos talos das plantações.”
(Gabriel García Marques / Cem Anos de Solidão)
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Trindade
"A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras,
Onde só abrem duas flores puras
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue...
E morrer de ternura!"
(Álvares de Azevedo)
Tempestuosa (ou "da chuva de ontem")
é cedo ainda, levanto para escrver...
Que posso fazer
se minha natureza é de ventania?
Qualquer hora hei de morrer...
Agora quero estar bem viva!
Ser vento quente, do norte...
já que sem escolha, um dia,
partirei vento sul, da morte...
Soprar brasa,
incandescer
Sentir o sangue pulsar na veia
- alheia
Trovejar,
e num relâmpago (teu)
derramar
ficar líquida
e evaporar (eu)
... agora chega, preciso dormir
Que posso fazer
se minha natureza é de ventania?
Qualquer hora hei de morrer...
Agora quero estar bem viva!
Ser vento quente, do norte...
já que sem escolha, um dia,
partirei vento sul, da morte...
Soprar brasa,
incandescer
Sentir o sangue pulsar na veia
- alheia
Trovejar,
e num relâmpago (teu)
derramar
ficar líquida
e evaporar (eu)
... agora chega, preciso dormir
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Biografia
quando sozinho, sofro.
com gente, finjo.
se amado, fujo.
amante, disfarço.
permanecendo, inquieto.
calado, penso.
pensando, calo.
tocado, tremo.
tocando, recuo.
vencedor, desinteresso.
vencido, odeio.
quase morto,
vivo assustado.
quase vivo,
morro de medo.
(Ulisses Tavares)
com gente, finjo.
se amado, fujo.
amante, disfarço.
permanecendo, inquieto.
calado, penso.
pensando, calo.
tocado, tremo.
tocando, recuo.
vencedor, desinteresso.
vencido, odeio.
quase morto,
vivo assustado.
quase vivo,
morro de medo.
(Ulisses Tavares)
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
o silêncio é meu norte
do silêncio, meu norte,
meu prumo
guardião da sorte
um passo atrás
se é sábio o recuo
sete vezes mais forte
sigo meu rumo
meu prumo
guardião da sorte
um passo atrás
se é sábio o recuo
sete vezes mais forte
sigo meu rumo
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